Veja os impactos do La Niña na agricultura brasileira

por | jan 27, 2022 | Canal Digital, Podcast | 0 Comentários

** Data da publicação 28/01/2022

Veja os impactos do La Niña na agricultura brasileira

por João Castro - Meteorologista da ClimaTempo e Especialista em Agronegócio | Episódio 33

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O clima é um fator que demanda muita atenção do produtor brasileiro. Além de interferir na produtividade, as variações climáticas também podem impactar no manejo dos tratos culturais, tais como plantio e colheita, modificando todo o ciclo produtivo da lavoura.

Além disso, há fenômenos climáticos que geram grandes mudanças no calendário dos produtores brasileiros, como o La Niña que desregula o regime de chuvas em todo o Brasil. No fim de 2021 e início de 2022, a agricultura brasileira está passando por esse desafio novamente, causando grandes períodos de seca na região Sul e fortes chuvas no Nordeste.

Para explicar esse fenômeno, seus impactos para a agricultura e as previsões para os próximos meses, convidamos o meteorologista da ClimaTempo especializado em agronegócio, João Castro. Neste episódio do podcast “Fala, Agro!”, o especialista trouxe um panorama do clima nas principais regiões produtoras do Brasil e uma importante análise  sobre a possível volta do El Niño. Confira!

O que é o fenômeno La Niña?

O La Niña se caracteriza pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico na região da linha do Equador. Além disso, com a intensificação dos ventos nessa localidade, são gerados problemas na circulação do ar atmosférico, causando irregularidades climatológicas em países próximos à região.

O evento pode provocar alterações nas temperaturas e nos volumes de chuvas. Porém, este fenômeno não é constante, pode se estender de nove meses a um ano e ocorre em intervalos que vão de dois até sete anos.

Quais os impactos do La Niña na agricultura brasileira?

No Brasil, o La Niña se manifesta de formas diferentes em cada região devido a sua grande extensão territorial. No Norte e Nordeste, as chuvas se tornam intensas, já na região Centro-Sul do país, os impactos ocorrem pela falta de chuvas e clima seco.

Na região Sul, de acordo com o Inmet, Instituto Nacional de Meteorologia, o fluxo de chuvas de 2021 foi 42% abaixo da média anual. “Tivemos o início de safra com chuvas dentro da normalidade que permitiu o plantio mais acelerado, muitos agricultores conseguiram plantar no Rio Grande do Sul, mas depois o La Niña foi se intensificando e então começamos a ver as irregularidades de precipitação no Sul do Brasil”, afirma João Castro.

Da mesma forma, na região central, no Mato Grosso do Sul o acúmulo de precipitações pluviométricas em 2021 foi de 1.269,60 mm, ante 2.783,20 mm de 2020, segundo o Cemtec – Centro de Monitoramento de Tempo e Clima de MS. Na mesma linha, em São Paulo, na região sudeste, a média do fluxo pluvial ficou 26% inferior ao esperado, de acordo com o Inmet.

Principais características do La Niña

1. Ocorrência de mais frentes frias no sul do país;

2. Temperaturas abaixo da média no Sudeste;

3. Redução do índice de chuvas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste;

4. Aumento do volume de chuvas nas regiões Norte e Nordeste.

Interferência do La Niña no plantio da safrinha

De acordo com o meteorologista, no início do plantio da safrinha de milho na região sul, o fenômeno climático possibilitou a antecipação da semeadura, entretanto, ao longo da fase inicial da cultura, o clima causou grande interferência, pois as secas se intensificaram, causando um atraso no desenvolvimento inicial.

“Há muitas áreas de soja na região do Rio Grande do Sul, onde muitas plantas se desenvolveram muito pouco. Já se fala em perdas de até 40% em algumas localidades da região Centro-Sul”, complementa o especialista.

Mas nem tudo está perdido. O meteorologista comenta que o La Niña deverá perder sua força nos próximos meses, melhorando a condição para o desenvolvimento da safrinha. “A previsão é de que até março a chuva volte aos seus níveis normais gradativamente, inclusive com chuvas em excesso em abril.”

Portanto, o produtor deve estar atento aos desafios climáticos na fase inicial para que a sua lavoura sofra o menos possível.

Porém, apesar dos desafios climáticos, as previsões são otimistas para a segunda safra. De acordo com o 4º levantamento da safra de grãos 2021/2022 da Conab, Companhia Nacional de Abastecimento, a produção da segunda safra de milho está projetada em 86.259,1 milhões de toneladas. Se comparado a safra 2020/2021, onde foram colhidos 60,74 milhões, o aumento da safrinha atual está projetado em 42%.

Confira o raio-x das previsões climáticas para a região Sul do Brasil

A região Sul do país sofreu grandes impactos do La Niña. Algumas cidades registraram apenas 10mm de chuvas durante o mês de dezembro de 2021, ficando muito abaixo da média histórica para a região. De acordo com a Conab, somente a parte leste dos estados do Sul tiveram volumes acima de 100mm. Já no restante dos estados, o acumulado total ficou em até 80mm, em algumas localidades, segundo a Conab.

De acordo com o especialista, a seca fora de época castigou as lavouras, há cidades que ficaram sem nenhuma chuva por 40 dias.

Porém, as perspectivas são de melhoras nas chuvas para os estados do Sul. “Algumas frentes frias já estão começando a gerar precipitações interessantes na região da divisa com o Uruguai. Portanto a chuva está voltando aos poucos”, complementa Castro.

Entretanto, esse processo de normalidade deve demorar mais alguns meses. O La Niña começa a perder força até a chegada do outono. Neste período de transição, os produtores ainda podem ter alguns desafios com a falta de chuvas durante os meses de verão. O especialista destaca as regiões oeste dos três estados como as piores nesta retomada.

Quais os impactos do La Niña na colheita da soja?

De olho nas condições climáticas, os produtores de soja na região central do país optaram por adiantar o plantio do grão, para que as chuvas de verão não atrapalhassem o processo. Algumas regiões conseguiram antecipar o plantio em cerca de 15 dias, comenta João Castro.

Por outro lado, o meteorologista indica que alguns cultivares mais precoces  germinaram antes do período ideal devido à grande quantidade de chuvas. “Esse excesso ocorreu principalmente na primeira quinzena de janeiro. Nesta época tivemos a Zona de Convergência do Atlântico Sul, que levou muita chuva em Minas Gerais, na Bahia e Mato Grosso.”

Na região norte do Mato Grosso, alguns cultivares germinaram dentro da vagem. De acordo com o especialista, é comum isso acontecer em anos de La Niña nesse local. Porém, é importante destacar que isso não é capaz de gerar grandes prejuízos.

Além disso, destaca o entrevistado, pensando na fase final da soja, o fenômeno na região central começou a perder força na segunda quinzena de janeiro de 2021. Enquanto isso, em fevereiro, as chuvas tendem a diminuir naturalmente, contribuindo para o avanço da dessecação e colheita da soja.

Qual o cenário e condições climáticas para a região do MATOPIBA?

Subindo mais no mapa brasileiro chegamos à região do MATOPIBA ou MATOPIBAPA. Os estados sofreram grandes prejuízos com a chuva, principalmente o oeste da Bahia, grande produtora de grãos, causando estragos nas lavouras e estradas.

Tanto nas cidades como nos campos, a previsão é de que as grandes precipitações já se distanciaram da região. “O que pode acontecer agora são novos episódios de chuva, mas dentro da normalidade”, comenta o meteorologista.

Inclusive, essa é uma boa notícia para a cultura do algodão, que já está se iniciando, pois a previsão é de não ter desafios sob o ponto de vista do clima. Para a soja e milho as expectativas também são positivas. “Cerca de 60 a 70% do sucesso de uma safra está relacionado às condições climáticas e nessas regiões não faltou chuva”, complementa Castro.

O La Niña pode afetar o outono?

Segundo João Castro, essa é uma notícia importante para os produtores de culturas de inverno na região sul, pois a previsão é que o La Niña comece a perder força nos próximos meses e não deve chegar com grande intensidade no outono.

Conforme o inverno se aproxima, a tendência é de que não haja nenhum resquício do fenômeno. Segundo o especialista, há 60% de chance dos produtores cultivarem no inverno com normalidade climática.

Inclusive, com o monitoramento do aquecimento do oceano atlântico, já há previsões remotas que indicam a volta do El Niño para a safra de verão na região sul, aumentando as chuvas para a localidade.

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